Há uma pergunta que raramente aparece nos relatórios de sustentabilidade, mas que define se uma empresa entendeu ou não o que é ESG. A pergunta é simples: quem, dentro da operação, é responsável por essa prática no dia em que ninguém está olhando? A resposta, na maioria das companhias brasileiras, ainda é ninguém.
Isso explica uma parte do problema. A sigla ESG, ambiental, social e governança, foi cunhada em 2004, numa publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial chamada Who Cares Wins. A provocação partiu do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, dirigida a cinquenta CEOs de grandes instituições financeiras. Passados mais de vinte anos, o conceito virou vocabulário corporativo obrigatório, o que quer dizer que foi, de fato, implementado na rotina.

O dinheiro já escolheu, a operação ainda não seguiu
O mercado financeiro tomou posição antes das áreas de gestão. Segundo levantamento da PwC citado pelo Pacto Global, a expectativa era que, até 2025, 57% dos ativos de fundos mútuos na Europa estivessem alocados em fundos que consideram critérios ESG, o equivalente a algo em torno de US$ 8,9 trilhões, um salto expressivo frente aos 15,1% registrados poucos anos antes. No mesmo levantamento, 77% dos investidores institucionais consultados afirmaram pretender deixar de comprar produtos que não seguissem esses critérios.
No Brasil, o movimento chegou com atraso, mas chegou. Fundos ESG captaram R$ 2,5 bilhões em 2020, segundo dados da Morningstar e da Capital Reset, e mais da metade desse volume veio de fundos criados nos doze meses anteriores. A B3 lançou, no mesmo ano, em parceria com a S&P Dow Jones, o índice S&P/B3 Brasil ESG, que usa como critério, entre outros pontos, a aderência aos Dez Princípios do Pacto Global nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção. O BTG Pactual criou um ETF sobre esse índice. A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, com mais de US$ 6 trilhões sob gestão, passou a incluir métricas ESG de forma transversal em todas as suas análises de risco.
O que essa sequência de números revela é uma mudança de critério de avaliação, não uma moda passageira. Quando o capital muda de critério, a operação que não acompanha essa mudança paga o preço em custo de capital mais alto, em dificuldade de acesso a crédito e em avaliação de risco desfavorável junto a parceiros e clientes corporativos.
No Brasil, a régua ficou mais rígida em 2026
Duas mudanças regulatórias recentes tornaram o tema ainda mais concreto para quem gerencia a operação.
A primeira é a NR-1, que estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO, dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR. Esse programa deixou de ser documento de gaveta do departamento de recursos humanos. Ele hoje se conecta a indicadores de governança: quando cresce o número de afastamentos por saúde mental, a métrica de ESG da empresa cai, e essa queda tem efeito direto sobre clima interno e sobre reputação externa.
A segunda é a Resolução CVM nº 244, publicada em 29 de maio de 2026, que tornou a divulgação de informações de sustentabilidade voluntária para companhias listadas em bolsa. Vale um grande parêntese aqui, a princípio isso pode parecer um retrocesso, mas voluntária não é sinônimo de irrelevante.
Ao contrário, a resolução redesenha o critério de diferenciação entre empresas. Quem opta por divulgar, e divulga com rigor auditável, sinaliza maturidade de governança para investidores e para clientes corporativos. Quem não divulga, ou divulga sem lastro (ou certificação ou auditoria externa, por exemplo), passa a carregar essa ausência como informação, ainda que não intencional.
O erro de tratar ESG como departamento de mídia
Entre as empresas atendidas pela MundoSocial, consultoria de comunicação para sustentabilidade fundada por Livia Spiniella, um padrão se repete. A demanda raramente chega travestida de propósito. Chega como sintoma: turnover recorrente, dificuldade em reter talento, fornecedor fora de conformidade, ou uma auditoria que expôs lacuna de governança que ninguém havia mapeado antes.
Esse padrão importa porque revela um erro de origem, comum em áreas de comunicação e marketing. Muitas lideranças ainda associam à ESG a campanha publicitária, um investimento caro e de retorno incerto. Essa leitura ignora onde está a maior parte do ganho real: na redução de perdas que já estavam em curso. Menos rotatividade de equipe, menos passivo trabalhista, menos risco de auditoria malsucedida, menos ruído com fornecedores. Esses não ganhos aparecem em campanha de mídia paga. Só aparece em balanço.
Quando o público interno entende essa lógica, algo muda no comportamento cotidiano. A colaboração com informações de compliance, antes vista como fiscalização incômoda, passa a ser tratada como corresponsabilidade.
Essa mudança de percepção não se compra com verba de mídia. Contudo, se constrói com comunicação interna estruturada, sustentada por dados reais, repetida ao longo do tempo, adaptada à linguagem de cada área.
Onde o ESG efetivamente entra na rotina
A resposta prática está na divisão em pontos concretos de decisão e não em campanhas de sensibilização, que via de regra são importantes, mas tem seus limites.
Na cadeia de fornecedores, verificar conformidade trabalhista e ambiental passa a não ser mais vista como checagem pontual, feita uma vez por contrato, e passou a exigir rotina de auditoria contínua dentro da área de compras.
Nas obrigações legais já existentes, como cotas para pessoas com deficiência, programa de jovem aprendiz e a própria NR-1, a diferença entre resistência e adesão está inteiramente na forma como a empresa comunica essas exigências ao público interno. Comunicada como imposição, a lei gera cumprimento mínimo. Comunicada com contexto e propósito claro, se aproxima do engajamento genuíno.
Na governança de dados, cada afirmação pública sobre sustentabilidade passou a exigir lastro interno auditável. Isso obriga áreas historicamente isoladas, RH, operações, marketing e comunicação institucional, a compartilhar indicadores de forma consistente, e não apenas uma vez ao ano, no momento de fechar o relatório.
Um caminho de quatro etapas, sem atalho
A implementação bem-sucedida costuma seguir uma sequência que respeita a maturidade real da empresa.
Primeiro vem o diagnóstico de maturidade, que mapeia em que estágio a empresa está em governança, cultura interna e comunicação, antes de qualquer promessa externa.
Depois vem o letramento das equipes, formação aplicada à realidade concreta de cada área, porque time que não entende o que é ESG na prática não consegue executar nenhuma política que dependa dele.
Na sequência, entra o planejamento de comunicação interna, que alinha RH, marketing e comunicação institucional em torno de uma narrativa única, traduzida por público e por canal.
Por fim, os casos reais funcionam como prova. Um relato concreto de mudança de comportamento, comunica mais do que dez posts educativos sobre teoria empilhados um atrás do outro.
O custo do silêncio
Segundo o levantamento do ISE, o Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3, 83% das empresas que compõem esse índice já possuem processos formais de integração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável às suas estratégias, metas e resultados. Esse número mostra onde está o novo piso competitivo entre grandes companhias.
Empresas que ignoram a NR-1 e mantêm turnover alto pagam essa conta em produtividade e em imagem perante o mercado. Empresas que não auditam a cadeia de fornecedores carregam um passivo invisível até o momento em que ele se torna visível, quase sempre no pior momento possível. E companhias que tratam a comunicação para sustentabilidade como peça de marketing, sem lastro auditável por trás, se expõem a um risco jurídico e reputacional que hoje pesa diretamente sobre o custo de capital.
ESG no dia a dia não é sobre parecer sustentável diante de quem está olhando. É sobre construir uma operação capaz de resistir à pergunta seguinte, feita por um diferentes stakeholders: onde está o dado que sustenta essa afirmação?
A MundoSocial atua exatamente nesse ponto de virada. Ajuda lideranças a transformar exigência regulatória e ambição institucional em rotina possível, com diagnóstico de maturidade, letramento de equipes e planejamento de comunicação interna integrado à estratégia de ESG.
#esg #sustentabilidadecorporativa #comunicacaointerna
Esse tema conversa com o momento da sua empresa?
Conta pra gente o que vocês estão construindo. A Livia e o time da Mundo retornam com um caminho possível para transformar a agenda ESG em comunicação que gera confiança.
Prefere falar direto? vamosconversar@mundosocial.com.br · (11) 92211-0205
